Sônia Daniel

O QUE VOCÊ DESEJAR, MAIS CEDO OU MAIS TARDE SE REALIZARÁ. O DESEJO PODE CRIAR SEU INFERNO OU SEU PARAÍSO. O QUE VOCÊ ANDA DESEJANDO???

Posted by: admin in: ● 5 de julho de 2012

O desejo é um apetite, uma mistura de paixão inquietante, avassaladora, impulsiva, mas também de razão, conhecimento, alteridade. Ele é um tipo de impulso para a vida. Não vivemos sem ele. Aliás, a vida seria muito sem graça se não tivéssemos essa possibilidade.

pensando 6Aceitar que somos seres desejantes e aprender a lidar com o emaranhado de sentimentos que surgem a partir dele – o desejo – é o nosso desafio.
Passamos a vida desejando, querendo. É impressionante como desejamos, achando que os nossos problemas serão solucionados, ou mesmo, que seremos mais felizes se os tais desejos forem realizados. E tem mais, quando não estamos à procura do nosso desejo por conta própria, sempre há alguém que esteja por nós, nos incitando a querer, a desejar algo mais. E Assim, acabamos acreditando que a nossa felicidade está ali, na realização daquele desejo.

Sem perceber delegamos e confiamos a responsabilidade pela nossa felicidade a outrem, ao tal desejo: de ganhar na mega sena, de encontrar um novo amor, de conseguir comprar um carro novo, etc…, para ser mais feliz.
Muitas vezes o desejo toma proporções irracionais dentro de nós e, sem perceber ficamos alienados, a mercê de algo que queremos sem saber “o que” e o “porquê” queremos.

O problema não está no desejar, pois como já foi dito, ele é um impulso importantíssimo e necessário para nossa vida. O problema está na forma, na compreensão e na postura que temos diante daquilo que desejamos.

São duas as possibilidades, ou seja, dois tipos de posturas que podemos ter diante dos desejos: a “passiva” e a “ativa”. A escolha que fazemos entre elas, pode levar a nossa vida a se tornar um Inferno ou ao Paraíso.

A Primeira possibilidade é a Postura Passiva – É a postura mais distraída, a que mais utilizamos nos desejos e escolhas do nosso dia-a-dia. Ela acontece quando o objeto do nosso desejo, seja ele uma pessoa, ou algo que queremos muito, começa a nos afetar de fora para dentro. Não compreendemos bem o que queremos e nem o porquê queremos. Apenas queremos de forma avassaladora, impulsiva, até que um estado de paixão imediata toma conta de nós. Passamos a acreditar que aquilo que desejamos é a razão da nossa vida, da nossa satisfação.
Projetamos nele – o desejo –as nossas expectativas, encantos e fantasias. Sem refletir, transferimos a responsabilidade de nós, de nossa felicidade, das nossas ações, a outrem ou àquilo que tanto queremos.
Deixamos a força avassaladora dessa paixão, tomar conta de nós e com o tempo, aquilo que era prazer, satisfação, torna-se uma frustração. Percebemos que não temos mais as rédeas de nossa existência e, uma vez desamparados por termos frustrado nossas expectativas, ficamos expostos a carência, a alienação.
Mudar esta postura é um desafio, que Osho retrata bem nesta passagem (take it easy. Vo. 12)

Estás pronto para tomar responsabilidade pela criação de sua própria
miséria, alegria, negatividade, positividade, inferno ou paraíso?
Quando esta responsabilidade é entendida e aceita,
as coisas começam a mudar.
Esteja aberto a uma nova possibilidade.”


A segunda Possibilidade é a Postura ativa – Ela também é composta dessa força avassaladora, impulsiva, mas tem algo a mais: “a intenção consciente”, a responsabilidade sobre cada coisa desejada. Os desejos podem ser lapidados e refinados por meio da nossa postura ativa em relação a eles. Isso acontece quando o objeto do nosso desejo, não está mais fora de nós. Aí sim, conseguimos refletir e atuar sobre ele. A responsabilidade pelo desejo não é mais transferida. Assumimos como nossa.
O desejo não desaparece, não é reprimido, e sim incorporado a nós. O que era só sentido no corpo como apetite, paixão avassaladora, sofre uma mudança qualitativa, reflexiva e a partir dela, aprendemos a administrar nossos desejos sem reprimi-los ou exacerbados.
O objeto ou o outro, não tem mais poder sobre nós, pois somos causa eficiente, ou seja, construtores conscientes, desses desejos: o poder agora está em nós e não fora de nós.

Ao contrário da ação passiva, a postura ativa é um processo libertador de autonomia, que começa no campo das paixões e termina no campo das ações conscientes.
De acordo com Espinosa “um afeto que é paixão deixa de ser paixão, quando dele formamos uma idéia clara e distinta”. Isto quer dizer que a reflexão sobre aquilo que estamos sentindo em relação ao outro, ou a qualquer coisa que desejamos, nos faz compreender o sentido dos nossos desejos e assim, tornamo-nos conscientes de nós como produtores de desejos.

Aprender a refletir e entender melhor nossos sentimentos e a ponderá-los de forma a permanecer ativamente em nossas escolhas é o caminho para o “Paraíso”.

Deixar de culpar os “outros” pelas nossas frustrações, insucessos, dissabores é dar um salto qualitativo de liberdade frente a nossa vida.

REFERÊNCIAS

Arruda, Francimar. Texto Desejo em Espinosa. Abertura do 3º livro da Ética;

Chauí, Marilena. Texto Paixão, ação e liberdade em Freud a Cultura Judaica e a Modernidade. Editora SENAC. São Paulo, 2003.

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